Sócrates morreu porque não aceitou conformar-se com a ignorância e incentivou os seus semelhantes a fazerem o mesmo: a cometerem o abominável crime de se questionarem!

 

Na matéria anterior falei sobre Loucura, como atitudes diferentes perante à sociedade é intitulado de Loucos. E continuando neste pensamento seremos mesmo loucos por defender Nossa Verdade quando nós somos questionados, ou como Sócrates que foi morto por enfurecer toda uma sociedade por questionar atitudes e defender a sua verdade!

Existia um baixinho, muito feio e tagarela que costumava ficar na praça pública atormentando os cidadãos de bem. Perguntava ele para algum transeunte:

- Você diz que respeita os corajosos? Mas, diga-me, o que é a coragem?

Ou então:

Você se diz uma pessoa justa, mas diga-me, o que é justiça?

Ou ainda:

- Você diz que sua opinião é verdadeira, mas diga-me, o que é verdade?

Sempre que alguém lhe tentava responder, habilmente o homem formulava outra pergunta que colocava o interlocutor em contradição. E de pergunta em pergunta, chegava um momento que enfurecido e cheio de dúvidas, o interlocutor dizia não saber o que sempre julgara saber.

Esse homem era Sócrates. E no momento que o interlocutor não sabia mais o que dizer, o filósofo lhe explicava que então agora estava pronto para filosofar (História contada em Convite à Filosofia. Marilena Chaui).

Sócrates é tão respeitável dentro da Filosofia porque jamais se contentou com as opiniões estabelecidas, com os preconceitos de sua sociedade e com as crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Seus pensamentos enfureceram de tal maneira os poderosos de Atenas que Sócrates foi condenado à morte, acusado de espalhar dúvidas sobre as idéias e os valores atenienses, corrompendo a juventude.

Mas seria isso um crime?

Em busca da Verdade

Todos buscam descobrir a Verdade por trás das coisas. Contraditoriamente, toda verdade é relativa.

Será que podemos dizer que uma tribo isolada da Nova Guiné está longe da verdade em suas práticas ritualísticas, enquanto que os civilizados ocidentais estão chegando cada dia mais perto dela com seu conhecimento científico? Será que um criminoso está longe da verdade, enquanto o líder religioso está tão perto que trás ela para o mundo?

Pois é, a escolha de nossas “verdades” é apenas produto de referências culturais. Cultuaríamos outros Deuses, Orixás, Santos ou outros padrões e outras formas de existência se houvéssemos nascido em outra cultura.

Nenhum sistema é completo, pois não é possível explicá-lo completamente partindo dele mesmo.

Como podemos explicar a origem do Universo se somos habitantes dele?

Da mesma forma não existe nenhuma verdade absoluta. Todos os conceitos são válidos dentro de seus sistemas de crenças.

Todos nossos sistemas foram criados para suprirem nossas necessidades. O Cristianismo funciona para os cristãos, assim como o Ateísmo para os ateus. É difícil, mas necessário conceber que ambas alternativas são válidas.

Todos os critérios, julgamentos e morais são baseados em sistemas de crenças específicos, e portanto são circunstanciais e não universais.

O saber científico é, no atual paradigma, colocado como o saber superior, por julgar-se o mais perto da verdade. Entretanto, todo fato é interpretado a partir de um ponto de vista, e o ideal de objetividade do método científico é falho, pois haverá sempre intervenção da subjetividade quando nos referimos às ciências humanas.

A mente humana, adaptada ao nosso plano de realidade, está sempre à procura de encontrar relações entre os fatos. Para todo acontecimento procuramos encontrar as suas causas. E assim como a ciência propõe, procuramos isolar as variáveis, quantificar o abstrato, controlar efeitos e assim obter sempre os mesmos resultados. Assim funcionam as ciências da natureza, como a física ou a biologia.

O Ponto não é negar o princípio de causa-efeito, pois ele é muito válido. Mas podendo abrir para outras opiniões a possibilidade de uma existência não relacionada a essa teoria.

Uma vez que a própria temporalidade é uma ilusão (Teoria da Relatividade, Einstein), conceito de diferentes tipos de existência é fundamental para compreender o ocultismo. No ocultismo nos abrimos à possibilidade de existências pertencendo a um tipo diverso daquele a que estamos acostumados, aparecendo-nos, portanto, como não-existência, porque não combina com nenhum dos requisitos que a nosso ver determinam a existência.

Questionando a realidade

Achamos normal que os seres humanos sigam regras e normas de conduta, possuam valores morais, religiosos ou políticos. Todas essas crenças existem de forma silenciosa e não questionada. Haver a sociedade é tão inquestionável como existência da luz ou da terra.

Mas e se não for assim?

A atitude questionadora de um filósofo é então de tomar distância da vida cotidiana e de si mesmo para indagar as nossas crenças.

É impossível abandonarmos todos os sistemas de crenças e estarmos neutros. Estaremos sempre defendendo alguma “verdade” em detrimento de outra. O desafio estará em desenvolver nossa liberdade dentro de nosso ambiente.

Essa é uma proposta ocultista: não aceitar os objetos da observação como naturais e óbvios, sem antes tê-los investigados e compreendidos.

Mito da Caverna e o Questionar-se

Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam estes homens de costas para a entrada, acorrentados, sem poder locomover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.

Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, este homem poderá sofrer desde simplesmente ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomaram por Louco e inventor de mentiras.

Pergunta-se: por que no filme Matrix, o personagem Neo é o escolhido?

Porque ele teve a atitude questionadora, perguntando-se, se o que ele vivia era realidade. Enfim, saiu da caverna.

Os alunos costumam dizer nas escolas: Para quê Filosofia? Isso não nos serve para nada!

Concordo até certo ponto. Sem filosofia, o mundo continuaria igual. E para sempre igual!

A razão dessa pergunta é cultural. Atualmente, tudo só tem seu direito de existir se possuir finalidade prática e utilidade imediata. É aquela mesma conversa dos alunos de matemática: “Para que preciso estudar logarítimos se nunca usarei isso na minha vida?”

Ao se estudar Mitologia sempre tem a pergunta “Por que faz isso e para que serve?” Mal sabem que ela é um dos mais úteis dos saberes.

O senso popular de nossa sociedade julga útil aquilo que dá prestígio, poder e riqueza. É muito difícil encontrar alguém que goste de estudar pelo simples fato de ser prazeroso, sem a necessidade de ter algum ganho imediato com aquilo.

Artigo 19 (Article 19)

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Todo indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.

 

Mas o que é liberdade?

Será que é apenas poder falar o que quiser?

De ir aonde quiser, quando quiser?

 

Não, é muito mais que isso.

Sócrates quando acusado por ”subverter” a juventude foi preso em uma cela. Mas quando questionado sobre o que ele achava de terem roubada a sua liberdade, respondia que ele era e sempre foi livre.

Sócrates morreu porque não aceitou conformar-se com a ignorância e incentivou os seus semelhantes a fazerem o mesmo: a cometerem o abominável crime de se questionarem.

 

Crime este, que todos estão convidados a refletir e cometer!


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Fontes

Matéria baseada do blog Teoria da Conspiração – Por Marcelo Del Debbio / Autor da Coluna Artigo 19 – Igor Teo

Imagem à direita é o Filósofo Vilém Flusser